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27/03/2011 - 04:57

As coisas mudam

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Felipe Paranhos

Eu costumo dizer que o fã e o jornalista de automobilismo em geral  são muito cruéis na avaliação dos pilotos. O cara tem 19, 20, 21 anos, e tem de ler e ouvir que não tem talento, que é vaca brava, que só faz besteira, que não tem futuro.

Meu exemplo número 1: Pastor Maldonado. Acompanho a GP2, minha categoria preferida, de perto desde sua criação, muito antes de eu entrar no Grande Prêmio. Vi o venezuelano correr durante quatro anos. Falei mal do rapaz, disse que era o pior piloto das principais categorias — não por não ter talento ou ser rápido, mas pela quantidade de besteiras que era capaz de fazer, arruinando corridas de adversários. Fui até mal-interpretado na ocasião, para variar. Mas acho quis fazer polêmica ao usar o termo ‘pior’, não era bem isso que eu queria dizer.

Pouco depois de escrever esse post, em 2009, percebi que estava sendo injusto com ele que nem todos os que eu criticava. E não deu outra: em 2010, na Rapax, Maldonado foi supremo, dominou a temporada da GP2 e garantiu, com a força do seu patrocinador, sim, mas com ótimos resultados também, sua vaga na F1.

Ainda assim, o agora piloto da Williams entrou na temporada 2011 sob desconfiança, com o rótulo de ‘perigo constante’. Os menos informados trataram Pastor como um pagante qualquer, assim hereticamente, como fazem com Sergio Pérez, este uma grande promessa.

Chego, então, onde queria: falou-se tanto do Maldonado por aí, que quem teve um fim de semana inconstante, repleto de erros e besteiras cometidas na pista, foi Barrichello. Depois de bons treinos livres, errou sozinho na classificação e foi parar na brita, jogando fora o Q2. Largando em 17º, se envolveu em um lance, embora de corrida, que o jogou para último logo depois da partida. E, quando fazia ótima corrida de recuperação, cometeu uma falha infantil, como piloto da GP2, ao tentar ultrapassar Nico Rosberg. Acabou com a corrida do alemão — justamente como Maldonado fazia no passado. Pastor tem 26 anos recém-completados.

Maldonado pode até lembrar na F1 os tempos em que custou o maior orçamento pós-acidente da história da equipe Piquet Sports na GP2. Pode bater nos 18 GPs por vir. Mas não merece mais o rótulo de inconstante dos primeiros anos da categoria de acesso. Tem mostrado o contrário, e o fez em Melbourne, sendo discreto até ser traído pelo carro da Williams na décima volta do GP da Austrália.

Exemplo 2: Vitaly Petrov. Nunca foi brilhante. Mas é esforçado demais, segundo conversei com um ex-colega de trabalho dele na GP2. Com a ajuda do dinheiro russo, andou quatro anos na categoria de acesso, três deles em equipes competitivas — primeiro a Campos e depois sua sucessora, a Addax.

No seu último ano na categoria, foi vice-campeão, atrás de um dominante Hülkenberg. Chegou à F1 pela Renault, equipe em queda, que aceitou o dinheiro — que nem era tanto assim em relação a níveis Maldonadísticos — e o risco de empregar um novato sem conquistas na carreira. Petrov não foi bem na estreia na F1. A Renault enrolou tanto quanto foi possível para renovar seu contrato, mas acabou estendendo o acordo. E Vitaly ouviu — não taaanto assim, porque o inglês já é meio macarrônico, imagina o resto dos idiomas — que era incapaz, fraco, batedor. Afinal, como pode surgir piloto bom da Rússia?

Aí Kubica sofreu o tal acidente no rali. Ficou fora da temporada. E a Renault foi buscar Heidfeld. Petrov ficou quieto, fazendo quilometragem na pré-temporada, conduzindo o desenvolvimento do R31.

Na corrida de abertura do Mundial, Heidfeld foi pífio, eliminado no Q1 da classificação, terminando em 14º a corrida. E Petrov, largando em sexto, subiu no pódio. O automobilismo é muito ingrato com pilotos jovens. Quem sabe Vitaly não dá um banho no ótimo Heidfeld? Claro, os que jogaram o russo aos crocodilos vão esquecer o que já disseram.

A verdade é que muita gente só vê e acompanha a F1. Não vê categoria de base, não acompanha turismo, não assiste o automobilismo de fato, não se informa. E não vê que as coisas mudam.

Autor: - Categoria(s): F1 Tags:

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40 comentários para “As coisas mudam”

  1. Bruno Brambila disse:

    Acompanhei estes pilotos mencionados e tenho a segunda opinião.
    O Pastor Maldonado só vai por dinheiro.
    Apesar de dominar a GP2 em 2010, ele é um porra-louca.
    Vcs Verão.
    Quanto ao Petrov torci muito por ele pois ver muitas qualidades aí. Acho ele super competente e não concordava com as crítacas no ano passado. Em 2010 faltou o que ele tem agora – experiência.
    Agora vamos falar de outro que vi correr de f3 GP2 e agora F1.
    Este sem dúvida é o melhor.
    Este vai em 2 ou 3 anos estar num time grande, simplesmente porque os outros são muito fracos.
    Ele pra mim tem pinta e um ano vai ser Campeão na F1.
    O nome dele é Sergio Perez.
    Quem viver verá !

    B Brambilla

    • Felipe Paranhos disse:

      O Pérez vai ser piloto de ponta, mesmo. É o melhor dos três. Concordo.

  2. Teotonio Oliveira disse:

    Meu amigo, faça o seu trabalho e deixa este rancor de lado em relação ao Barrichello. Pelo visto você está querendo dizer que o Maldonado é melhor que ele. Barrichello ultrapassou ele, Pereze outros mesmo caindo para último. Ficou claro o que aconteceu na batida, ele estava se defendendo do japonês e o Rosberg freiou antes por causa dos pneus desgastados. Você se esqueceu que o Barrichello estava com os pneus novos?

  3. Marcelo disse:

    O Maldotado (sem trocadilhos) sempre andou de monopostos e sempre acelerou demais, vamos ver quando ele perder a timidez e tentar bater (n)o Barrichelo. O Petrov andava 2s mais lento quando começou na gp2. Não teve a mesma escola do Pastor Chaves, era engraçado ver as corridas dele quando o sportv não mentia falando que transmitia e mostrava provas de hipismo. Batidas, rodadas, o carro era demais pra ele mas, eis que de repente vejo-o brigando pela ponta no gp da turquia em 2009 se não me engano. Progrediu demais e não chegou em 3o por sorte. Azar do Alonso…

  4. Bruno disse:

    O pior as vezes não é nem isso…Quando se consegue um bom resultado, todo mundo corre atrás de alguma justificativa pra diminuir o mérito do cara…”Se Petrov chegou em terceiro, o Kubica teria ganho com o pé nas costas”, “O Perez só chegou em sétimo por que fez uma parada só”…

    Quando o cara é rotulado de pagante e ruim, ninguém jamais vai admitir que o cara teve um bom desempenho ou que melhorou como piloto…

  5. Caetano disse:

    Felipe, Pastor estreou legal, mas a questão é: Ele já não começa como um piloto do feijão com arroz, assim como Di Resta? Vamos analisar o caso dos pilotos que estrearam um pouco tarde: Heikki, Timo, Sutil, Petrov. Sutil teve um bom desempenho para um estreante, teve até boas chances de conseguir uma vaga na McLaren, mas e agora? Olhando daqui a 4 anos, quando talvez exista novamente uma vaga #1 realmente disponível (na Ferrari, suponho) Alonso vai ter 33 anos, será que Ferrari iria contratar um Heikki de 33 anos, Timo de 32, Petrov de 29, di Resta de 28, Pastor de 29? Claro, antes disso haverão 3 boas vagas: de Massa, Webber e Button, mas Alonso, Vettel e Hamilton vão pulverizar seus concorrentes pois são mais jovens, mais experientes e mais campeões mundiais que seus contemporâneos. Perez, Ricciardo e até Buemi vão ter muito mais chances que essa turma toda ai. Outra: Pastor não erra porque está no seu auge de pilotagem: 26 anos, vai manter o ritmo até 29 (considerando ai um pequeno crescimento devido as adaptações) e depois decrescer, como todos.

  6. Bruno Ribeiro disse:

    Não acho que o Petrov seja um piloto ruim, mesmo ano passado. Nas primeiras corridas fez boas aparições e se manteve próximo de um excelente Kubica. Depois foi começando a cometer erros de um piloto novato pressionado pelo seu muito rápido companheiro. Ninguém esperava que ele fosse bater o Kubica mesmo, mas fez papel interessante em algumas provas se colocando por perto, mas sempre estragava cometendo erros bobos. Porém, esse tipo de erro pode ser corrigido em pilotos que conseguem manter a cabeça no lugar, que é o que parece vir acontecendo com o Petrov. Temos de admitir também que o Heidfeld se envolveu em um acidente no início da prova e seu carro não estava em boas condições, porém, é fato que ele foi mal na classificação. Acredito que o Petrov pode ser um bom piloto na F1, talvez não excelente, mas pelos rotulos que ele carregava, acho que será bom pra ele este ano.

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