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18/10/2011 - 14:50

O sentido do automobilismo é o risco (de morte)

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FELIPE PARANHOS [@felipeparanhos]

Só hoje eu li o texto de André Forastieri sobre a morte de Dan Wheldon. O título é “O sentido do automobilismo é a morte” e causou discussão no Twitter, notadamente por parte de pilotos e jornalistas que dele discordaram. Como na era de internet infelizmente não se ouve, lê ou vê nada sem um juízo de valor previamente estabelecido, muitos se apressaram a atacar o autor do texto, evocando aspectos de seu passado como jornalista — todos vinculados ao fato de Forastieri ter escrito textos polêmicos ao longo de sua carreira, como se isso fosse necessariamente negativo.

Forastieri é um jornalista experiente, da geração do Flavio. Por isso, eu, jovem, li um texto dele pela primeira vez há poucos anos. É um opinador voraz. E neste ponto abordo o primeiro dos tópicos deste meu texto. Em geral, as pessoas não sabem lidar com opiniões discordantes. Li que a opinião de Forastieri não deve ser levada em conta porque supostamente, o jornalista é alguém que “se aproveita” de temas polêmicos para ganhar cliques — como se as pessoas devessem julgar uma opinião pelo que acham de seu dono. Vi gente que deveria zelar por sua imagem pública chamar o cara de imbecil e animal, por exemplo, por ter um ponto de vista oposto ao seu. (Esse desrespeito e a falta de noção em lidar com a discordância pode ser vista aqui mesmo no BloGP e em qualquer blog de opinião. Já perdi as contas de quantas vezes fui xingado porque achava uma coisa e não outra.)

O segundo tópico deste post refere-se ao conteúdo do texto de Forastieri. Vamos ao trecho principal do que disse o jornalista. “Quem corre, corre risco de morte. É grande parte da sedução deste ‘esporte’. É por isso que atrai grande audiência, e corrida de kart ou bicicleta, não. No risco de acidente está a grana, o patrocínio, o faturamento. É para isso que pagam um dinheirão para os pilotos.  É por isso que Wheldon, ex-campeão, receberia dois milhões de dólares pela participação na corrida em que morreu.”

A discussão sobre automobilismo ser esporte ou não é secundária, deixemos de lado. O valor que Wheldon receberia seria quase esse mesmo, uma vez que dividiria os US$ 5 milhões com um torcedor. Fiquemos no conteúdo. E, sorry, guys, Forastieri falou a verdade. Não confundam objetivo com sentido. O objetivo do automobilismo é ser o melhor na difícil tarefa de tornar homem e máquina uma coisa só. E isso é bem arriscado, vocês sabem — numa pista de kart ou na F1. Quando alguém morre num circuito, todos repetem o chatíssimo clichê “automobilismo é esporte de risco”. O sentido do automobilismo é o risco. E esse risco é do quê, senhores, senão da morte, de uma lesão grave, de ficar fora das pistas para sempre? Ao dizer que o sentido — e não a lógica — do automobilismo é a morte, Forastieri não cometeu uma heresia. O risco não pulula na tela o tempo todo, lembrando-nos que aquele piloto pode morrer a qualquer momento. Mas ele é inerente à corrida. Está implícito.

Seguimos com parte do texto de André. “Seria facílimo tornar o automobilismo mais seguro. Você assistiria? Não. Morre, então, mais um piloto. Triste para a família e amigos e fãs. Mas inegavelmente previsível. E grande atração televisiva, capotamentos e incêndio bombando audiência do domingo à noite, repercutindo na internet, visualizações dos vídeos aos milhões”.

Um adendo, então: o fim do ano está chegando. Num exercício de previsão, que jornalista dirá que, em 2012, morrerão menos de três pilotos nas principais categorias do esporte a motor mundial? Mortes no automobilismo são, sim, previsíveis, por mais que a segurança evolua. E não é preciso muito esforço para perceber que tristes acidentes repercutem tanto quanto vitórias marcantes. Um exemplo? Dan Wheldon. Experimente digitar o nome do inglês no YouTube e selecionar a opção contagem de exibições. Os cinco vídeos mais vistos sobre o piloto somam 12.558.425 views. E ele morreu há dois dias. O sexto colocado entre os vídeos mais exibidos sobre Wheldon é a vitória dele nas 500 Milhas deste ano, há quatro meses: 351.022 views. O instinto macabro do ser humano, por sua vez, é incontável.

Discordo quando Forastieri diz que o automobilismo é um espetáculo monótono, que ninguém mais assistiria automobilismo se este fosse absolutamente seguro. Não sei. Mas, de resto, André não escreveu nenhum absurdo. A adrenalina é gerada pelo risco, e esse risco é de morrer, como em todos os esportes ditos radicais. E acredito que parte do furor gerado pelo texto advém do título forte e do fato de que o jornalista não é do meio. E julgar um texto por este critério é ridículo.

Acho que o grande estalo da polêmica foi semântico. O objetivo do automobilismo não é o risco. A lógica do automobilismo não é o risco. O sentido dele é.

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33 comentários para “O sentido do automobilismo é o risco (de morte)”

  1. Marcos disse:

    Belo texto, mas não concordo com você e nem com o Forastieri. você citou que “O objetivo do automobilismo é ser o melhor na difícil tarefa de tornar homem e máquina uma coisa só.” Concordo. E acho que o sentido do automobilismo é ser o mais veloz.. O risco existe, corridas são perigosas. Mas o futebol é perigoso, um choque de cabeças e o cara já era.futebol americano, o vôlei, todo esporte tem seu risco. o automobilismo tem o risco maior do que outros? Sim. mas nem por isso ele é o sentido do automobilismo. Ver corridas pra gente morrendo não o sentido dele. Forastieri em resumo simplório do seu texto, disse que os pilotos são suicidas e quem assiste um bando de carniceiros, isso fica explícito principalmente no último parágrafo dele. o automobilismo é mais do que morte, e quem é fã sabe disso. Por mais que a gente julgue culpados e fiquemos caçando bruxas, foi uma fatalidade, que poderia ter sido evitada, mas mesmo assim uma fatalidade.
    E desses milhões de views que você citou é de gente leiga, uma morte no esporte chama muito a atenção, mas muito mesmo. amigos meus que não dão a mínima para corridas me perguntam detalhes do acidente a todo instante. ma acho que o publico mais assiduo a esse meio não assiste tanto a isso. Eu não consigo mais ver esse vídeo do acidente, não tenho mais estômago. Enfim, não sei se fui claro em meu argumento, mas pelo menos não te xinguei….hehehe abs

    • Felipe Paranhos disse:

      haha, valeu, Marcos. De fato, eu acho o tom do texto dele um pouco exagerado em alguns pontos. Mas é o toque de quem, aparentemente, não gosta de automobilismo. Eu relevo algum exagero pra poder destacar esse lado que concordo. É que eu cada vez mais fico frustrado com o desrespeito a quem está ali dentro dos carros. Se chegasse um cara, sei lá, de Marte, e visse 34 carros num oval de 1,5 milha a 300 km/h, pensaria: “Vai dar merda.” Como é que a organização da Indy não pensou? E isso acontece todo ano em mil categorias, vide as mortes aqui no Brasil. Abraço! Seguiremos discordando com respeito!

  2. Fernando disse:

    O texto do André Forastieri foi puramente oportunista (como tudo que vem da Recópia) e de quem não entende nada de automobilismo, quem conhece corrida em oval, sabe que é assim desde 1911, o que podemos debater é o que pode ser feito para a segurança, mas nunca será 100% seguro, NUNCA. Com essa linha de pensamento do texto, vamos pensar, pra que serve o UFC? Ficar ganhando rios de dinheiro pra bater na cara do outro? Esporte é competição, o ser humano compete até qndo não está pronto, espermatozoide correndo para o óvulo e só um vence. Sobre o perigo da Indy, morre mais pessoas nas competições ciclísticas do que no automobilismo. Os carros para 2012 já vão solucionar boa parte do problema, mas a exposição do piloto no monoposto, que desde a sua criação, fica com a cabeça descoberta, só cobrindo mesmo, isso não tem outra solução, mas muitos defendem que, se cobrir e o carro pegar fogo, o perigo é maior, então… vamos acabar com o automobilismo?

    • Fernando Silva disse:

      Eu sou favorável à cobertura que você mencionou, xará. Lembre-se das 24 Horas de Le Mans desse ano. Dois caras (Allan McNish e Mike Rockenfeller, da Audi) sofreram acidentes gravíssimos e talvez não teriam sobrevivido se não fosse a cobertura. Lembro também que a FIA fez alguns testes com tal dispositivo neste ano, mas ao que me parece, as equipes e principalmente Bernie Ecclestone não aprovaram. Fato é que com ou sem cobertura, não tem jeito. O risco vai existir sempre, mas não é inerente apenas ao esporte a motor. Qualquer esporte de contato, ainda que este seja mínimo (veja o vôlei, por exemplo, com a Jaqueline, nos últimos dias), oferece certo risco.

  3. Eduardo Azeredo disse:

    Eu concordo com os argumentos, mas não concordo com o ponto de vista.

    Pra mim a questão não é o cidadão se valer da polêmica pra ganhar cliques. Assuntos polêmicos e fatos marcantes repercutem e até quem não lida sempre com eles acaba tendo seu interesse despertado. E é justamente isso que faz tais fatos serem marcantes. Como uma morte no automobilismo.

    Claro que o risco que envolve o automobilismo é um tempero. Faz parte da admiração que nós temos por quem está lá e ignorar isso é ignorar a manjadíssima máxima “Motorsport is Dangerous”. Mas isso não é o cerne principal, a habilidade requirida faz parte. Se fosse só pelo risco, não estaríamos jogando no PC e nem você disputando corridas no F1BC! hehehe

    O meu problema com o texto do Forastieri é a maneira como ele trata um assunto delicado e uma atividade que muita gente gosta com um certo desdém e uma vontade louca de simplesmente mostrar que está certo.

    O único levantamento estatístico que vi o Forastieri fazer foi de 56 mortos em Indianápolis, logo depois de falar que daqui a poucos meses outro piloto morrerá. Num pequeno exercício de matemática a gente já conclui que no mais tradiconal oval do mundo a média de mortos é de menos de um por ano. Fora que falar o tom de desdém com que ele fala destas mortes ignora por completo as melhorias de seguranças que nós conhecemos bem.

    E depois vem a infeliz idéia de que assistimos corrida porque os pilotos morrem. A F1 com 17 anos sem morte e passos consideráveis na evolução de segurança prova isso com suas audiências que antingem a casa dos bilhões de espectadores.

    Agora, não questiono o automobilismo ser monótono. A diferença é que eu assisto uma corrida inteira e tem gente que aguenta assistir 90 minutos de futebol, o que raramente é meu caso, mas que passa longe de ser um argumento pra desqualificar o esporte que não é meu favorito.

    O grande problema não é a constatação do Forastieri, mas sim a falta de respeito na hora de criticar. E, como carioca que sou, isso não é inédito vindo dele.

  4. Eduardo Azeredo disse:

    Uma outra observação, menos a ver com o texto, mais com a afirmação: “O sentido do automobilismo é o risco (de morte)”

    Lembra do Yuji Ide correndo na F1 que essa afirmação perde 90% do sentido.

  5. Junior disse:

    O problema é que o texto dele passa a mensagem que a profissão de piloto consiste em arriscar a vida em troca de muito dinheiro.
    Pobre coitado, é uma visão de quem realmente não conhece o automobilismo de perto, e só conhece automobilismo de casa, sentado no sofá, assistindo as categorias “tops”. Não conhece a realidade de amor pela competição e também da procura desesperada por patrocínios, de pilotos que tiram dinheiro do próprio bolso para poder correr.

    • samucon disse:

      Existe a paixão pelo esporte…. não duvido. Agora, ninguém tiraria dinheiro do próprio bolso se não tivesse a expectativa de retorno. E… pilotos profissionais das categorias TOP’s ganham muito.. muito… dinheiro. Assim o retorno, além de garantido é alto assim como o risco. Só que dinheiro você pode perder mais de uma vez. A VIDA…. é uma vez só….
      Pergunta que não quer calar: O que motivou Wheldon a aceitar o convite para correr? a expectativa do prêmio $$$ ou o amor ao esporte? – Nunca saberemos

  6. Braulio Gerhardt disse:

    Na F1 não morre ninguém há 17 anos e mesmo assim ela é a categoria de automobilismo mais popular do planeta. Só isso já derruba a tese do cidadão que escreveu esse texto.
    Trata-se claramente de alguém que não gosta (e não entende nada) de automobilismo se aproveitando da situação pra depreciar o esporte.
    Com relação às visualizações do acidente no Youtube, concordo que o ser humano é sádico e “carniceiro” por natureza. Agora eu pergunto, desse 12 milhões de visualizações, quantas são de pessoas que gostam de automobilismo?
    O autor do texto teria razão se dissesse que PRA QUEM NÃO GOSTA DE AUTOMOBILISMO, o sentido do automobilismo é a morte. Aí sim, eu diria que o cidadão acertou em cheio. Inclusive ele próprio é uma prova dessa afirmação.

    • Felipe Paranhos disse:

      Discordo de você em relação à F1. Isso não derruba a tese do cara, porque tem 17 anos que não morre nenhum piloto (piloto, porque gente envolvida já morreu nesse tempo) na F1, mas de 1950 até 1994 morreu bastante gente. Quando parou de morrer piloto, a F1 já era o que é.

    • Braulio Gerhardt disse:

      Felipe Paranhos: E a popularidade da F1 diminuiu nesses 17 anos sem mortes? Esse é ponto. Se o sentido do automobilismo fosse a morte, a audiência da F1 teria diminuído drasticamente, o que não ocorre a nível mundial. Ou seja, não é o risco de morte que faz as pessoas gostarem de automobilismo. No máximo, podemos dizer que esse risco existe e quem não gosta do esporte usa isso pra depreciá-lo (como se o risco de morte não estivesse presente em tudo na vida).

    • Felipe Paranhos disse:

      Mas o risco existe o tempo inteiro, Braulio. O risco é um dos elementos inerentes ao automobilismo, morra gente ou não. O que eu acho é que correr o risco é um fator mais vinculado à vontade do piloto do que do espectador.

  7. fernando amaral disse:

    caro Felipe, li o post do Forastieri pela sugestão que o Flavio Gomes fez, creio que ontem.
    fiz um comentário extenso lá no blig do Gomes, que aliás escreveu muito bem como ele vê a questão levantada pela frase que dá título ao post do outro e também aqui deste seu.

    penso que o que incomoda nas afirmações do Forastieri é a generalização absolutamente negativa do automobilismo esportivo.
    a frase em questão é poderosa, mas questiono se encerra toda a verdade sobre o ‘correr de carros’ e também o prazer de assistir as tais corridas.
    posso estar enganado, mas a mim está claro que o cara nunca presenciou uma corrida, nunca foi a um autódromo passar pela emoção de ver/sentir uma largada; penso mesmo que o cara julgaria ridícula tal sugestão, se dar ao trabalho de ir a Interlagos ver o GP da F1, por exemplo.

    daí vai que, de novo, deduzindo pelo perfil com que ele se apresenta – ‘polemista’ – o que ele escreve, o faz a partir do que observa na mídia – escrita, falada, videofotográfica etc.
    é certo, a audiência pela tragédia é muito maior do que de qualquer boa corrida.
    mas isso não vale nada para quem gosta de ver corridas por outros motivos que ele não enxerga, a saber, a competição direta entre dois carros na pista (imagine qual foi a sensação dos poucos coreanos que presenciaram o duelo Hamilton X Webber no último GP, lá no autódromo), e mais que isso, o espetáculo sensorial das velocidades anormais e dos sons muito altos (tão altos quanto o som de boas bandas de rock – por falar nisso duvido que o cara faça elocubrações ‘jornalísticas’ sobre espetáculos de música, seja qual for, presenciando o evento. não parece ser o modo de trabalho dele ).
    é sabido, por quem já foi ver uma corrida decente, num circuito, qie o som só de um carro subindo marchas e ganhando velocidade já faz sentir prazer – não sei dizer se é adrenalina ou alguma outra química natural do nosso organismo – mas é fato que leva a uma excitação pelos sentidos, ANTES de sentirmos a possibilidade de forte perigo.

    sinceramente duvido que o dito jornalista aceite considerar o ponto de vista de um espectador fanático, afinal o cara se diz ‘polemista’, o que pra mim denota puro exercício de narcisismo através de escrita jornalística.
    entendo que fanáticos (no sentido de fãs) são relativamente poucos, mas tenho que afirmar que existem, assim como há os fanáticos por outros esportes.
    talvez o cara também conteste o porquê dos espetáculos esportivos esportivos, desqualifique como ‘cultura’, bem ,daí, sem chance…

  8. Felipe Antunis disse:

    Desculpa, mas o sentido do automobilismo é o mesmo da prova de 100 metros rasos, é o mesmo de qualquer outra modalidade esportiva, é chegar na frente, é vencer… você não assiste atletismo pra ver o cara correr o risco de tropeçar e se ralar todo no chão, assim como você não assiste automobilismo pra ver o cara se acabar no muro… E não sei, posso estar sendo muito ingênuo, mas considero sim a morte do Wheldon, como boa parte das outras fatalidades nas pistas, só isso, uma fatalidade… você citou o extraterrestre na prova da indy, agora imagina esse mesmo et sobrevoando um campo de rugby vendo 30 caras se matando por uma bola de 30 cm, ele vai pensar o quê? Assim como deu merda na corrida de Vegas, a Indy já disputou provas em ovais curtos, com um grid de tamanho semelhante na década de 90 (talvez com pilotos ainda mais despreparados) e não deu nada… sei lá, como eu disse, posso estar sendo um pouco ingênuo demais…

    • Felipe Paranhos disse:

      Não deu nada porque essa relação não é automática: não é ‘corre-se risco, dá merda’. Corre-se risco e nem sempre dá merda, como quando idiotas bebem e dirigem por aí. Mas, no dia que dá merda… A Indy já andou em muito oval curto e não deu nada, mas já andou num circuito com uma árvore do lado da pista, e um piloto decolou, meteu a cabeça lá e morreu. A Indy expõe demais os pilotos. :(

  9. Fui um dos ‘poucos’ que assistiu ao acidente ao vivo, pelo streaming. Foi a primeira morte que assisti ou, ao menos, consciente do que estava assistindo – a do Senna, por exemplo, não vi no instante, apenas depois.

    Ao refletir sobre o acidente – que me baqueou muito domingo – e ao ler o texto do Forastieri, lembrei de uma fala do Homer Simpson(!). Num dos especiais da Casa dos Horrores, Homer se encontra com a Morte e fala:

    – Você deixou a NASCAR mais interessante.

    De longe, parece-me que o público americano convive com a morte, sobretudo no esporte, de modo diferente que o nosso. É uma tragédia, claro, mas eles entendem que ela pode fazer parte do ‘espetáculo’. Desafiá-la é um dos objetivos. Quem morre via um ‘heroi americano’.

    Quanto a Forastieri, temos que entendê-lo como alguém leigo em automobilismo – não que eu seja especialista, mas acompanho, enquanto ele não deve fazê-lo. Digo isso pois o que ele descreve é muito parecido com o que minha mãe dizia pra mim quando eu falava que queria ser piloto:

    – É muito perigoso. Tu vai ficar correndo e se sofre um acidente? Vou ficar sem filho?

    Não teríamos dinheiro para uma eventual carreira no automobilismo, mas o que a assustava era a possibilidade de ver seu filho morrer enquanto competia. Para os leigos – quem não acompanha com afinco, por assim dizer – a morte é, sim, o sentido do automobilismo.

    Como (futuro) cientista, também sei que desastres acontecem, que são pontos fora da curva, que são outliers. E justamente por serem inesperados e não obedecerem à uma periodicidade, ficamos chocados. Ainda mais quem gosta de corridas.

    (PS.: Paranhos, precisa mudar o nome dos redatores do BloGP, ali no perfil. Faltam Felipe Giacomelli, Juliana Tesser e Paula Gondim =))

  10. William Do Val disse:

    Felipe,
    tenho que discordar de você. Pelo menos pra mim, o que aconteceu sabado foi um tapa na cara. Lembrar que o esporte que agente ama, que agente gosta tanto mata e mata tão brutalmente é muito ruim. O sentido nem o objetivo do automobilismo é o risco, muito menos o risco de morte. Quando agente acorda de madrugada pra ver corrida, ou paga uma fortuna por um ingresso em Interlagos agente não espera uma super batida ou que alguem morra. No domingo, quando sai de uma festa mais cedo pra ver a corrida de Las Vegas era pra ver quem seria campeão: Dario ou Power; sinceramente não era pra ver alguem morrendo e muito menos tão brutalmente. Discordo inteiramente daquele texto. do Forastieri. Existem pessoas mórbidas que gostam de morte, é um fetiche, e é por isso que o video da morte do DW é mais visto que o video da vitoria na Indy 500, simplismente porque existe mais gente mórbida no mundo do que gente que gosta de corridas.
    Curto muito o blog, mas nesse caso discordo.
    Forte abraço.

    • Felipe Paranhos disse:

      Valeu, William, grande abraço pra você também. O que eu acho é que esse “sentido” se encaixa mais à atividade mesmo de correr, aos pilotos. O automobilismo é um esporte-negócio, como todos os grandes esportes de hoje em dia. E a parte negócio se vale muito desse risco, até porque é inerente ao esporte, desde que o mundo é mundo. Também não acho que quem gosta de automobilismo assiste esperando um acidente, muito pelo contrário.

  11. alberto disse:

    Desculpem-me, mas acho tudo isso uma grande bobagem. Como posso dar valor a um texto que traz a seguinte afirmação: “O automobilismo moderno é espetáculo estranhamente monótono, e simultaneamente cada vez mais arriscado”? Cada vez mais arriscado? Morreram menos pilotos nessa década correndo em ovais na Indy (!) do que provavelmente em uma ou duas temporada de F1 das antigas. O automobilismo é cada vez menos arriscado e os números comprovam isso. Ele poderia inclusive se valer dessa informação para tentar uma linha de argumento mais favorável à sua opinião (o que seria pedir muito, dada a sua total ignorância sobre o assunto). Poderia correlacionar a audiência decrescente da F1 ao fato de que ninguém morre lá há 17 anos. Fortaleceria o seu ponto de vista, não é mesmo?

    Alguém pode achar que eu estou me evadindo do ponto principal discutido no texto dele. Vamos a ele então. “O sentido do automobilismo é a morte”. Não, não é. O sentido do automobilismo é a competição,. É essa a natureza do homem. Tal como o basquete, o golfe, o futebol e o tênis de mesa, atividades absolutamente inócuas e muitas vezes com remuneração bem mais farta aos seus praticantes.. Por favor, parem com esse negócio de que exste risco no futebol. Existe risco de quebrar a perna, de bater a cabeça, oh. A não ser que você fique deitado na sua cama 24 horas por dia, pasmem, você está sob o risco permanente de quebrar sua perna ou bater a sua cabeça.

    O ser humano é mórbido por natureza. Mas não acredito que seja por um instinto carniceiro ou nada que o valha. É apenas o reflexo daquilo que mais nos amedronta, da certeza que queremos adiar ao máximo. A morte. Sim, vocês já devem ter visto algo parecido em “O Auto da Compadecida”, sorry. Não sou uma pessoa culta, alguns vão de J. G. Ballard nquanto eu vou de Auto da Compadecida. Bem, eu ia dizendo que a morte nos fascina, mas não ponhamos na conta dela o interesse pelo automobilismo. Eu pessoalmente olho sempre para esses videos querendo sempre entender o que deu errado e me pego imaginando o que “eu” poderia ter feito para evitar. No caso do Dan Wheldon, já cheguei à MINHA conclusão incorruptível de que teria freado muito mais do que ele freiou, como fez um carro imediatamente atrás dele (é só assistir com atenção e verão sobre o que estou falando). Esse sou eu querendo enganar a morte, nada além disso.

    Vou falar o que me impressiona nesse assunto todo. Os fenômenos globaização e internet. É de impressionar a repercussão do assunto, até por quem visivelmente não entende bulhufas. Manifestações de sumidades do automobilismo ou de ilustres desconhecidos do mundo inteiro ecoam prontamente em blogs, sites, tuíteres e afins, com ares de sentença definitiva. Automobilismo é isso e aquilo, corridas em ovais devem ser extintas etc. A velocidade da informação trouxe um imediatismo intrigante. Eu olho para isso e penso, poxa, ninguém morria em ovais na Indy há cinco anos. Há algum tempo atrás as pessoas nem esperavam o defunto esfriar e já botavam os carros na pista. Ratzenberger, anyone? Scott Brayton? E o próprio Dan Wheldon que sagrou-se campeão na mesma semana em que a a “máquina de devorar carne” fez sua última vítima em 2006? Talvez por isso o Mario Andretti seja o único que procure “minimizar” um pouco o assunto, ele não tem cara de quem usa muito a ferramenta global de informação.

    Essa é apenas uma opinião (de quem não é muito fã de ovais, diga-se de passagem), não foi com o intuito de trollar ou nada do tipo. Abs.

    • Felipe Paranhos disse:

      Nada, Pacheco. Tem mais é que falar, mesmo. Aliás, muito bons seus argumentos, me deixaram balançado em relação ao que eu defendi. É, como tudo o que se refere à morte no esporte, uma questão muito complexa. Abraço.

  12. Tiago disse:

    Abaixo ao automobilismo!
    Digam sim a volta dos gladiadores!
    hahahaha

    O sentido do automobilismo é provar quem é o melhor, o mais rápido, o mais bem preparado, seja fisicamente, tecnicamente e psicologicamente.

    Chegar próximo ou pelo menos parecer estar próximo da morte excita muito, pois assim pensamos que podemos vencê-la, ou que temos um certo controle sobre ela. A certeza é que um dia ela ganha, mas ela só te ganha uma vez, já nós podemos vencê-la muitas e muitas vezes. Isso é excitante!

  13. Corrida de monoposto( open wheel ) em Oval, só serve para matar pilotos. É a forma mais mediocre de Automobilismo, mas infelizmente é a base da segunda maior categoria de monopostos do mundo.

    Agora a coluna desse senhor ai é patética.
    Bem gentil de sua parte tentar devender ou entender o ponto de vista de um companheiro de profissão. Mas acho que pelo desconhecimento dele doque e automobilismo é que gerou essa repercursao toda, nao o titulo do texto , e sim o conjunto da obra.

    Boa analise de qualquer forma, se ele pensase antes de digitar teria escrito alguma coisa nos padroes do seu texto.

  14. GUSTAVO RANGEL disse:

    Um dia , talvez, vcs entendam que sao dois os verdadeiros sentidos do automobilismo: em primeiro lugar, andar em um carro o mais rápido possível, num determinado local, seja ele fechado (circuito) ou aberto. Em segundo lugar, ganhar completar no menor tempo possível uma determinada distância,( uma corrida por exemplo), tendo o objetivo de fazer esse tempo menor que todos os seus concorrentes, obtendo-se assim a vitória na corrida. Por isso, que é bobagem dizer, por exemplo um piloto ganhou do outro pq ultrapassou durante um pit-stop. Ele ganhou pq completou a distância da corrida em menos tempo que seus adversários e isso inclui o tempo gasto no pit-stop. Existem riscos no automobilismo, mas quem acha que a graça de assistir uma corrida é ver acidentes, com ou sem vítimas fatais são os mesmos que só assistem corrida quando tem brasiliero ganhando, ou seja, AQUELES QUE NÃO GOSTAM DE AUTOMOBILISMO

  15. André disse:

    Eu acho que o jornalista em questão não entende nada do assunto e quis se passar por filósofo ou entendido, e ficou bem mal visto por todos. É lógico que alguém que não gosta de automobilismo não tem a menor propriedade pra criticá-lo, pois não vive intensamente o esporte, assim como em qualquer outro assunto, se tem ume predisposição contra, simplesmente não acompanha e nao tem base para criticar.

  16. May disse:

    Também discordo do texto do André e acho oportunista.
    Se informando mais um pouco, saberia que ciclismo mata muito mais que automobilismo, até mais que motociclismo, mais que paraquedismo e só perde para alpinismo.
    Então poderiamos dizer que quem pedala uma bicicleta profissionalmente é suicida e quem vai assistir a volta da França está querendo ver alguém despencar de um barranco?
    Muitos esportes envolvem riscos, o sentido deles é a morte?

    • Felipe Paranhos disse:

      Não acho que seja falta de informação. Não se esqueça que estamos falando do automobilismo e sua história. Não do automobilismo dos últimos 15 anos. A história do automobilismo é vinculada fortemente ao risco de morrer. E, sim, acho que, em todos os esportes que envolvem grande risco, o sentido é o risco de morte.

  17. Adriano disse:

    Automobilismo é um esporte em que os pilotos ganham muito bem para aceitar esse risco. Pilotos são idolatrados pelo risco que correm e não apesar deles. Senão correr seria o mesmo que andar de patins ou correr a pé. Por isso alpinistas e pilotos de moto são venerados pelo seu público. Estou de saco cheio que toda vez que morre um piloto, babacas querem mudar as curvas, os autódromos etc. Quem acha Formula Indy perigosa dê uma olhada na Corrida da Ilha de Man onde o maior desafio é sair vivo de lá! Lá podemos dizer que o vencedor é O CARA!

    • Felipe Paranhos disse:

      Acho seu comentário deplorável. Então o legal é expor os pilotos ao maior risco possível, é isso?

  18. Ronaldo Dudczak disse:

    Bom na Indy morreram dois pilotos entre 2006 e 2011 e quantos morreram de acidentes de carros no periodo. voltamos a andar a pé ou a cavalo?????

  19. Fabrizio Petecof disse:

    Penso que o risco da morte é sim um componente como outros para atrair o público e faz parte do contexto e do desafio, mas não chega nem perto de ser o sentido do esporte!

    Historicamente, em todas as civilizações antigas aprendemos que haviam atividades que seriam os esportes da época, e situações de fato onde a morte fazia parte do espetáculo, como nos duelos do Coliseu por exemplo.

    Mas foi um grande exagero e irresponsabilidade até associar isso ao automobilismo! justamente naquele dia.

    O grande sentido do automobilismo pra mim é a emoção da velocidade, de ser o homem a dominar uma máquina desafiadora e cada vez mais rápida. O automóvel é uma das maiores invenções o homem e ser o mais rápido, é ser cultuado por isso. Seria uma espécie de poder, algo assim ao meu ver.

    A F-1 e a Nascar evoluíram muito nos últimos anos e com uma geração que continua “consumindo” esses esportes e que não cresceram vendo pilotos morrerem com frequencia. Eu vejo assim.

    Felipe, você não concorda que para decifrar tudo que estamos debatendo nesse fórum basta o cara ir a Interlagos pela primeira vez num treino de F1 e ouvir uma Ferrari rasgar a reta bem ali em sua frente? Certamente o sentido do automobilismo é “tatuado” na mente dele! É disso que estamos falando. Talvez falte isto a este jornalista! rsrsrs

    Ficou claro que o jornalista não detém conhecimento suficiente para escrever algo tão forte logo após um fato tão triste em que a comunidade do automobilismo estava fragilizada. Por isso causou tanta repercussão! Um jornalista deveria medir o que escreve em alguns momentos, tomar cuidado com essas “opiniões”, já que seu trabalho na essência é sim colocar as notícias, fatos tal como são aí sim doa a quem doer, mas opinião… ainda mais sem ter propriedade pra isso, sem desrespeito ao profissional mas soa como aqueles sites de fofoca…

  20. Joao Calango disse:

    Não crítico o jornalista, afinal este é um dos papéis do jornalismo, contudo criticar o automobilismo é algo normal quando há mortes, insegurança, etc….

    já ouvi dizer que a IRL não vai correr mais em ovais de 1,5 milhas, como se isto fosse acabar com as mortes por lá….quando acontecer vai acontecer com qualquer um em qualquer lugar.

    Acidentes fazem parte, porém o risco de morrer é alto, porém pilotos sabem dos riscos e assinam este contrato de risco, se não fosse assim não haveria corrida em ovais, em lugar algum.

    Quando se decidiram correr em São Paulo, torci para que ninguém morresse naquela pista, já imaginou o que seria???

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