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18/10/2011 - 14:50

O sentido do automobilismo é o risco (de morte)

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FELIPE PARANHOS [@felipeparanhos]

Só hoje eu li o texto de André Forastieri sobre a morte de Dan Wheldon. O título é “O sentido do automobilismo é a morte” e causou discussão no Twitter, notadamente por parte de pilotos e jornalistas que dele discordaram. Como na era de internet infelizmente não se ouve, lê ou vê nada sem um juízo de valor previamente estabelecido, muitos se apressaram a atacar o autor do texto, evocando aspectos de seu passado como jornalista — todos vinculados ao fato de Forastieri ter escrito textos polêmicos ao longo de sua carreira, como se isso fosse necessariamente negativo.

Forastieri é um jornalista experiente, da geração do Flavio. Por isso, eu, jovem, li um texto dele pela primeira vez há poucos anos. É um opinador voraz. E neste ponto abordo o primeiro dos tópicos deste meu texto. Em geral, as pessoas não sabem lidar com opiniões discordantes. Li que a opinião de Forastieri não deve ser levada em conta porque supostamente, o jornalista é alguém que “se aproveita” de temas polêmicos para ganhar cliques — como se as pessoas devessem julgar uma opinião pelo que acham de seu dono. Vi gente que deveria zelar por sua imagem pública chamar o cara de imbecil e animal, por exemplo, por ter um ponto de vista oposto ao seu. (Esse desrespeito e a falta de noção em lidar com a discordância pode ser vista aqui mesmo no BloGP e em qualquer blog de opinião. Já perdi as contas de quantas vezes fui xingado porque achava uma coisa e não outra.)

O segundo tópico deste post refere-se ao conteúdo do texto de Forastieri. Vamos ao trecho principal do que disse o jornalista. “Quem corre, corre risco de morte. É grande parte da sedução deste ‘esporte’. É por isso que atrai grande audiência, e corrida de kart ou bicicleta, não. No risco de acidente está a grana, o patrocínio, o faturamento. É para isso que pagam um dinheirão para os pilotos.  É por isso que Wheldon, ex-campeão, receberia dois milhões de dólares pela participação na corrida em que morreu.”

A discussão sobre automobilismo ser esporte ou não é secundária, deixemos de lado. O valor que Wheldon receberia seria quase esse mesmo, uma vez que dividiria os US$ 5 milhões com um torcedor. Fiquemos no conteúdo. E, sorry, guys, Forastieri falou a verdade. Não confundam objetivo com sentido. O objetivo do automobilismo é ser o melhor na difícil tarefa de tornar homem e máquina uma coisa só. E isso é bem arriscado, vocês sabem — numa pista de kart ou na F1. Quando alguém morre num circuito, todos repetem o chatíssimo clichê “automobilismo é esporte de risco”. O sentido do automobilismo é o risco. E esse risco é do quê, senhores, senão da morte, de uma lesão grave, de ficar fora das pistas para sempre? Ao dizer que o sentido — e não a lógica — do automobilismo é a morte, Forastieri não cometeu uma heresia. O risco não pulula na tela o tempo todo, lembrando-nos que aquele piloto pode morrer a qualquer momento. Mas ele é inerente à corrida. Está implícito.

Seguimos com parte do texto de André. “Seria facílimo tornar o automobilismo mais seguro. Você assistiria? Não. Morre, então, mais um piloto. Triste para a família e amigos e fãs. Mas inegavelmente previsível. E grande atração televisiva, capotamentos e incêndio bombando audiência do domingo à noite, repercutindo na internet, visualizações dos vídeos aos milhões”.

Um adendo, então: o fim do ano está chegando. Num exercício de previsão, que jornalista dirá que, em 2012, morrerão menos de três pilotos nas principais categorias do esporte a motor mundial? Mortes no automobilismo são, sim, previsíveis, por mais que a segurança evolua. E não é preciso muito esforço para perceber que tristes acidentes repercutem tanto quanto vitórias marcantes. Um exemplo? Dan Wheldon. Experimente digitar o nome do inglês no YouTube e selecionar a opção contagem de exibições. Os cinco vídeos mais vistos sobre o piloto somam 12.558.425 views. E ele morreu há dois dias. O sexto colocado entre os vídeos mais exibidos sobre Wheldon é a vitória dele nas 500 Milhas deste ano, há quatro meses: 351.022 views. O instinto macabro do ser humano, por sua vez, é incontável.

Discordo quando Forastieri diz que o automobilismo é um espetáculo monótono, que ninguém mais assistiria automobilismo se este fosse absolutamente seguro. Não sei. Mas, de resto, André não escreveu nenhum absurdo. A adrenalina é gerada pelo risco, e esse risco é de morrer, como em todos os esportes ditos radicais. E acredito que parte do furor gerado pelo texto advém do título forte e do fato de que o jornalista não é do meio. E julgar um texto por este critério é ridículo.

Acho que o grande estalo da polêmica foi semântico. O objetivo do automobilismo não é o risco. A lógica do automobilismo não é o risco. O sentido dele é.

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29/04/2011 - 15:38

Muita força

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Felipe Paranhos

Yuki Takahashi marcou o melhor tempo desta sexta-feira de treinos livres em Portugal pela Moto2. Mas não há espaço para a alegria pura no homem mais rápido da categoria mais disputada do motociclismo. Ele perdeu seu irmão mais novo, Koki, no último domingo (24).

Koki, também piloto, já com passagens pelas categorias de acesso à MotoGP, voltava de um evento beneficente que reuniu recursos para as vítimas dos terremotos no Japão, em sua terra natal, Saitama, quando se envolveu em um acidente de trânsito e faleceu.

Cinco dias depois, lá está Yuki, que em uma semana deve ter envelhecido muito mais do que os três anos de diferença que tinha em relação a Koki, fazendo o que há de melhor em seu trabalho e superando outros 38 pilotos — todos, suponho, totalmente concentrados nos pontos a disputar no Estoril.

Eu não teria a menor condição de trabalhar se passasse pelo que ele passou.

Muito menos conseguiria fazer minha função com excelência.

De onde se tira tanta raça?

Autor: - Categoria(s): MotoGP Tags: , , , ,
31/10/2009 - 11:44

Uma década

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Gonzalo Rodriguez e Greg Moore foram homenageados ao fim de 1999

Felipe Paranhos

O Jackson Lopes, do Blog da Indy, ótima página para fãs da categoria, me alerta: neste dia 31 de outubro, completa-se dez anos da morte de Greg Moore. O piloto, que fez quase toda sua carreira pela Forsythe, era a cara do carro azul e branco da equipe, que tinha patrocínio da Player’s. (lembram?)

O canadense foi um dos meus primeiros ídolos. Conhecido pela pilotagem agressiva, Moore ganhou a temporada 1995 da Indy Lights, e quase completou quatro anos seguidos na Indy, não fosse o acidente fatal em Fontana, última etapa do campeonato de 1999.

Greg já tinha contrato assinado com a Penske. Foi talvez o acidente mais terrível que já vi em uma grande categoria de monopostos. Em seu lugar, acabou indo Helio Castroneves.

O piloto havia sofrido um acidente com sua moto na sexta anterior à corrida. Passeava pelo autódromo quando foi atingido por um carro. Levou mais de dez pontos na mão. Não deveria correr, mas acabou indo para a prova. Foi a segunda morte na Cart naquele ano. A outra foi de Gonzalo Rodríguez. Em meu blog, o Zeroforce, escrevi um texto falando sobre ele.

No fim do ano passado, Roberto Pupo Moreno contou a Victor Martins sua experiência daquele fim de semana, quando foi convocado para o lugar do canadense. Veja:

GP: Um fato curioso, se assim a gente pode dizer, é que em 1999 você foi chamado para disputar as 500 Milhas de Fontana no lugar do Greg Moore.
RM: É, mas o Greg, na última hora, quis correr. Falou que ia aplicar uma injeção. Aí ele se acidentou.

GP: Sim, morreu instantaneamente.
RM: Fiquei com pena. Se eu tivesse corrido no lugar dele, não teria acontecido com ele nem comigo.

Hoje, o site oficial do piloto, que sediou uma fundação no passado, exibe apenas um agradecimento de seu pai e a seguinte mensagem: “Para Greg, em amável memória. Vemos você lá na frente”.

Você se lembra de Greg? É só falar aí embaixo.

P.S.: Hoje, o canadense James Hinchcliffe, piloto da Indy Lights, declarou que Greg foi “um herói”. “Penso em Greg sempre que entro no carro. Minhas luvas vermelhas são iguais [às dele]. É uma homenagem sutil e um delicado lembrete. Ninguém passava melhor por fora.”

Autor: - Categoria(s): F-Indy Tags: , , ,
15/06/2009 - 13:55

Lição de insegurança

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Carlos Pardo morreu. Confesso que sequer havia ouvido falar nele até sua morte. Ontem, liguei a TV, passei pelo Speed e a corrida da Nascar México, em Puebla, estava passando. Não quis ver. Fui esperar a final da NBA, acho.

Hoje, soube do acidente e da morte do piloto. Vi o video, que está no Grande Prêmio. Fui me informar melhor sobre o que aconteceu para fazer a notinha. Jorge Goeters abriu a última volta em primeiro. Pardo o ultrapassou. No ímpeto para retomar o primeiro lugar, Goeters tocou o rival, que foi a 220 m/h em direção à ponta de um muro.

Sim, algo como uma ponta. Um muro interno que não é uniforme, que se inicia em meio à reta. O carro 21 de Carlos foi em direção à quina desta dita proteção. E ele morreu.

Não vou dissertar sobre a segurança dos bólidos da Nascar México por não conhecer a estrutura tubular dos carros, muito menos entender de resistência de materiais. Mas o absurdo é evidente. Como absurdos são tantos dos nossos autódromos — guard-rails datados dos anos 1970, barrancos no lugar das áreas de escape — e tantas coisas no automobilismo brasileiro — ausência de antidoping, capôs voadores. 

Vocês sabem do que eu estou falando.

E pensar que Ruben Pardo, irmão mais novo e companheiro de equipe de Carlos, viu tudo de perto. Não sei olhar para este tipo de coisa com frieza. Espero continuar assim.

[Felipe Paranhos]

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